Do Brasil com SAUDADES...

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12-08-2005   

[N.º 2]

A Igreja

Antonio José Veiga Roldão antonioroldao@yahoo.com.br

 

No nosso “n.º 1”, conversamos sobre a nossa escola. Naquela oportunidade, informei que, no próximo, ou seja, neste, conversaríamos sobre a nossa Igreja que é o que faremos a seguir.

 

A nossa Igreja possui um espaço em nossas vidas, e também em nosso imaginário, que nem a nossa escola poderá superar. Os festejos recentemente apresentados pelo João em nosso site servem para comprová-lo mais do que minhas simples palavras.

 

É indiscutível a religiosidade do povo português. Não é sob esta ótica que aqui me expressarei, pois, me falta competência para sua abordagem por este ângulo.

 

Para efeito de uma melhor inserção ao tema, cabe posicionar-me, ou seja, inserir-me neste cenário. Sou da linha descendente do Padre Antonio, tio de minha mãe e, portanto, dentro da nossa cultura, seu sobrinho “indireto”. Sou também sobrinho direto do Padre Adriano Veiga que, mesmo tendo se afastado do exercício de “padre”, se manteve tão católico quanto o fora enquanto no exercício do papel para o qual se preparou no Seminário de Vila Real.

 

Meu irmão Adriano, o primogênito da família, chegou a freqüentar o Seminário de Vila Real por dois anos e, só não se ordenou, porque viemos para o Brasil. Fica evidente que, se a mudança não tivesse ocorrido, eu seria o próximo a ingressar no Seminário. Estou certo que se meu irmão tivesse completado seus estudos, tentaria ser um bom padre e, provavelmente o mesmo deveria ocorrer no meu caso.

 

Ficaria então uma indagação para nossa reflexão: o sacerdócio não deveria ser uma vocação ? Nesta reflexão, à luz dos fatos, se parece mais com uma “linha sucessória”. Não estou querendo levantar nenhum tipo de polêmica. Apenas procuro registrar os fatos.

 

Lembro que saí do Castedo com 8 (oito) anos e, portanto, meio século depois, certamente minhas lembranças poderão me trair.

 

Entretanto, recordo-me perfeitamente, não propriamente da primeira missa celebrada pelo Padre Cabral, mas (acredito ter sido na casa dele) de suas mãos incrivelmente brancas/limpas ao se preparar para a missa. Por que me recordo deste pequeno detalhe ? ... Não sei. Talvez tenha ficado impressionado por aquele tipo de mãos tão diferentes das dos outros homens do Castedo, mãos “carimbadas” pela árdua tarefa de seus afazeres diários na lavoura.

 

Lembro-me também do peso do Missal. Sim, tão pequeno, eu já “ajudava” a missa. No Brasil quem cumpre essa tarefa chama-se “Coroinha”. Não sei como se chama em Portugal. Pergunto-me: por que “Coroinha” ? Será porque os padres possuem “coroa” ?

 

Naquela época, era o Padre Antonio celebrando a missa, eu ajudando e minha avó assistindo. Uma “verdadeira população” !!! Só nós 3 (três)!

 

Naturalmente há outros pequenos pecados cometidos naquele período: comer uma hóstia furtivamente, beber (“escurrichar”) o restante do vinho do Padre, etc., etc.

 

Lembro-me das “25 croas” (dois escudos e cinqüenta centavos), pequena “GRANDE” moeda que às vezes recebia após a missa e que ia correndo levar para minha mãe. Lembro-me de muitas flores amarelas no entorno da Igreja, de tocar o sino (com um medo terrível de cair daquela altura imensa), etc.

 

De todas as lembranças, a mais estranha é bastante recente. Como acredito já ter-lhes falado, estive há poucos anos no Castedo com meu filho Jorge e com meu sobrinho Hélio (filho da Maria Estrela). Para variar, a passagem foi breve e, como não poderia faltar, levei-os para conhecer a nossa Igreja. Já era noite e a Igreja estava funcionando. Para não causar nenhum transtorno à atividade que ocorria, entramos cautelosamente por uma porta lateral para a parte final da Igreja, ou seja, ficamos atrás de todas as pessoas procurando passar desapercebidos. Até hoje não sei bem o que ocorreu. Quando perceberam nossa presença, as pessoas nos olharam de forma indagadora. Seria apenas porque éramos três pessoas “desconhecidas” ou se trataria de um antigo costume onde os homens se colocam próximo ao altar e nós estávamos (involuntariamente) quebrando uma tradição ao nos posicionarmos nos “fundos” da Igreja ? Talvez alguém possa me esclarecer o fato.

 

Muitas outras “pequenas” lembranças povoam minha cabeça mas, por hoje creio ser suficiente.

 

Não lhes falei da bela arquitetura da Igreja, não lhes falei da beleza dos santos, não lhes falei de religiosidade nem de coisas assemelhadas pois não era este o propósito.

 

Ainda não sei sobre o que falarei no próximo número. Aguardo as sugestões.

 

Forte abraço a todos.

Antonio J V Roldão