Do Brasil com SAUDADES...

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08-09-2005   

[N.º 3]

Saudades

Antonio José Veiga Roldão antonioroldao@yahoo.com.br

 

Pois é, cá estou de novo e, desta vez, para comemorar a primeira contribuição recebida de um leitor.

 Não é um leitor comum, é um muito especial, meu irmão Adriano Alberto Roldão, sobre o qual já comentei no “número 0”, e também no número “2”, quando escrevi sobre a  “Igreja”.

Meu irmão me mandou uma contribuição “colocando-se no meu lugar”, ou seja, como se fosse eu.

 Fala o Adriano, assumindo o meu papel pois na época eu tinha apenas 3 (três) anos de idade, sobre a vinda do meu pai Baltazar para o Brasil.

 Fala como se fosse eu, mas na verdade fala de suas próprias lembranças e das emoções vivenciadas naquele início dos anos 1950.

 Sendo ele, sendo eu, isto é o de menos. O que importa, efetivamente é a emoção que meu irmão conseguiu passar para mim, e assim espero, para todos os leitores. Afinal, não fomos a única família a viver a experiência.

 Hoje, os que ainda precisam sair em busca de novos rumos (o português é assim “desde sempre”), não mais o fazem tendo como destino o Brasil. Este foi substituído pela França, pelo Canadá e por tantos outros lugares.

 No Brasil, à imagem do que também percebi estar ocorrendo no Castedo (tomara que minha percepção esteja errada), já não somos tantos. Por aqui, surgem nossos descendentes, já brasileiros mas que possuem uma “veia” portuguesa. No Castedo, entendo a situação um pouco mais problemática. Saem agora os mais jovens. Quem ocupará seu lugar ?...

 Bem, meu papel não é efetuar uma análise migratória nem sociológica, meu papel é falar de SAUDADES e, desta vez, falará por mim o Adriano, como se Antonio fosse. 

 SAUDADES – QUANDO TUDO COMEÇOU

(Adriano Roldão)

 “Era o início dos anos 1950. Meus irmãos, (Nair, Maria dos Anjos, Maria Estrela e Adriano) já na escola e eu, o mais novo com apenas 3 anos de idade, ainda ocupava o maior tempo diário da minha mãe. Conversando com eles disseram-me que não se lembravam exatamente o mês, mas que era um dia de bastante luminosidade, claro e bonito.

Meu pai, em busca de trabalho para alimentar tantas bocas, estava de partida para o Brasil que, naqueles tempos, era o refúgio de tantos e tantos portugueses do pós guerra, quando toda a Europa sofria com a falta de trabalho.

Salazar, pelo que se entendia, no intuito de tornar Portugal um país auto-suficiente, aumentava os impostos  de tal forma que os chefes de família não tinham como agüentar.

Lembram-se eles, meus irmãos, dos preparativos que ficaram marcados em suas memórias, principalmente, o desmontar da máquina de costura onde nosso pai trabalhava no ofício de alfaiate. Peça por peça, tudo limpo e lubrificado, meu pai colocou uma por uma num caixote que tinha mandado fazer na carpintaria do pai do Chico, Adriano e Soledade (precisaria confirmar os nomes com as Marias), que eram nosso amigos e com os quais brincava-mos quase diariamente.

 Nesse dia , triste para nós, mas de bastante angústia para nossa mãe, que agora ficava com uma responsabilidade por demais pesada pois os filhos, quase todos por criar, ainda não podiam ajudar no próprio sustento.

Esse dia, repito, foi marcante por demais em nossas vidas, e eu e meus irmãos ficamos de rostos inchados de tanto chorar.

Foi muito difícil essa época. Uma época cheia de saudades e de lembranças de nosso pai que se encontrava longe, num país que sabíamos somente que se chamava Brasil.

Lembravamo-nos muito dele, nessa época. Eu, particularmente, lembrava-me de quando ele   me mandava  comprar um quartilho de vinho no Sr. Seixas,  pendurando-me a garrafa no pescoço.

Lembrava-me que quando ele chegava em casa, às vezes já meio tocado,  e nos assustava a todos, fazendo carrancas para nós, que corríamos para debaixo das camas. Eu, por ser mais pequeno, era o que tinha mais medo. O tempo passou depressa e hoje, passado tantos anos, lembrei-me de falar um pouco de quando começou. SAUDADES.”

 Como eu, o Adriano também se preocupa com eventuais lapsos de memória.

O que importa isso ? Nada !

O que efetivamente importa é, pelo menos para mim, ver meu irmão relembrando momento tão significativo em nossas vidas, dividindo seus sentimentos com os castedenses, ainda que, “como se fosse eu”.

 Forte abraço a todos.

Antonio J V Roldão