Do Brasil com SAUDADES...

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28-09-2005   

[N.º 4]

RECORDAÇÕES.....  CINCO ANOS DEPOIS...

 

Antonio J Veiga Roldão antonioroldao@yahoo.com.br

  Meu irmão Adriano nos manda mais uma valiosa colaboração, com o título “Recordações ... Cinco anos depois ...”

 Extremamente oportuna esta contribuição pois, CINQUENTA ANOS DEPOIS, eu estou retornando ao nosso querido Portugal !

 Não volto definitivamente ao Castedo, mas o “freqüentarei” com mais assiduidade pois, eu e meu filho Jorge, acabamos de ser aceites para um doutorado na Universidade de Coimbra. Embarcaremos nos próximos dias .

 

Desta forma, é provável que os próximos números sejam escritos em território português. Mas a saudade não se extinguirá, estejam certos ...

 Mas, vamos lá ao que nos brinda o Adriano ...

 “Inicio de Abril de 1956. Era chegada a nossa vez de arrumar as malas e seguirmos viagem para encontrar com o nosso pai no Brasil. (Por incrível que pareça, dentro de alguns meses estará fazendo meio século que isso aconteceu).

  Eu, nessa época, encontrava-me estudando no Seminário de Vila Real e, a intenção de minha mãe, era que eu lá continuasse até completar os meus estudos. Soube que ela consultou os nossos tios padres (Antonio e Adriano Veiga) sobre o assunto, e que eles concordaram que deveria ser dessa forma. Meus irmãos irradiavam alegria pensando na viagem. Tudo muito bem só que não contavam com a minha discordância, pois quando eu soube o que estavam tramando, reclamei veementemente, choraminguei, já que eu não queria continuar estudando e deixar de ir ao encontro de nosso pai no Brasil. Os estudos no seminário eram muito puxados. Ficou decidido finalmente que eu também viajaria.

 O adeus de despedida de nossos parentes e amigos do Castedo, lembro-me, foi na Praça, onde o carro do meu padrinho (o saudoso padre Adriano Veiga) nos esperava. As pessoas ao se despedirem, enchiam-nos as mãos de moedas, beijavam-nos e ficavam com os olhos umedecidos. A partir desse momento, sabia-mos que só as lembranças perdurariam em nossas memórias. Ficavam para trás, para longe, os nossos familiares e amigos e os nossos lugares tão queridos da nossa infância.

 O embarque estava marcado para o dia 23 de Abril. Saímos do Castedo com destino a Lisboa, onde minha mãe iria providenciar os documentos que estavam faltando (vacinas, passaportes etc.), Nesse intervalo de tempo ficamos hospedados na casa de nossa tia Bárbara, irmã de nosso pai, que morava no bairro de Benfica. A viagem por si só já foi uma verdadeira festa. Nossos pequeninos corações eram inundados por uma alegria desmesurada. Naquela época andar de carro era coisa bastante rara. Minha irmã Maria dos Anjos gritava para o meu padrinho passar todos os carros que se encontravam na estrada. Na sua inocência, não sabia o quanto era arriscado e perigoso fazer essas manobras, muito embora o tráfego de então, ser bastante tranquilo.

 Em Lisboa, minha mãe, com a filharada pela mão, percorria os órgãos públicos, um por um, para providenciar a documentação necessária ao nosso embarque. Era impressionante, ainda hoje admiro-me, como ela tinha a capacidade e a destreza de agir naquele ambiente, movimentando-se com desenvoltura, como se conhecesse todos os meandros cafkianos das repartições públicas daquela época. Convém lembrar que aqui no Brasil, quando chegamos, teve que fazer a mesma coisa para cumprir as exigências burocráticas do país, já que meu pai não se prestava para esse tipo de coisa.

Minha mãe sempre foi (e ainda é) uma mulher admirável, capaz de ir para qualquer lugar, sem ligar para as dificuldades. Aqui no Brasil, muitas vezes foi à procura de pessoas do Castedo que ela descobria, não se sabia como, seus endereços. Ainda hoje, com a idade de quase 89 anos, tem esperanças de voltar a visitar seus parentes e amigos Castedenses, terra que ela sempre amou e nunca esqueceu e que, em muitos e muitos fins de semana, é motivo de grandes conversas entre a nossa família. É só puxar assunto sobre o Castedo, que os olhos dela brilham e já se tem conversa para o resto do dia.

 Enfim, 23 de Abril chegou e com ele o nosso embarque para o Brasil. O navio que minha mãe escolheu para a viagem chamava-se VERA CRUZ. Quando o vimos pela primeira vez no cais todos ficamos deslumbrados com aquela maravilha. Era, pelo menos para nós, alguma coisa fantástica e inimaginável. Meu padrinho levou-nos até à plataforma de embarque, beijou-nos e ficamos esperando a ordem para subir. Quando a ordem chegou e olhamos para trás  ele, inteligentemente, havia simplesmente desaparecido de perto de nós. Já no convés, minha mãe descobriu-o no cais acenando seu lenço de despedida. Eu nunca me esqueci destes detalhes e da elevação dos sentimentos que ficam para sempre gravados dentro de nossos corações.”

 O gajo não poderia ser poeta ? Não, não é só admiração de irmão, o cara é bom mesmo !!!

 Bem, no próximo número já devo estar escrevendo de Coimbra (ou quem sabe do Castedo ...)

 Até breve.